Friday, April 30, 2004
 
a felicidade sabe a morango

neste corropio de línguas e mãos, os corpos trocam de identidades e arfares. perdem-se pernas, mãos e línguas. a língua perde-se mais que o resto, perde-se no umbigo tão doce, perde-se na pele e nas cavidades até ela aumentar o ritmo da respiração, ela já não respira, arfa, ela geme e chama por ele. ela já não aguenta, ele continua mais devagar, ele acelera o ritmo do prazer tão próximo, volta a língua imparável. ela agarra-o com força e ele segue, ela põe as mãos na cabeça dele, agarra-o e ele não foge. ele saboreia a mulher naquela doçura ondulante. as mulheres saboreiam-se até ao fim. ela senta-se em cima dele e olha-o: nem sabes até onde vamos agora... ela conduz a mão dele para a sentir húmida.

[N]


Saturday, April 24, 2004
 
acelera. trava. porra, dá para me deixares ter uma merda dum orgasmo???

detesto esta vossa mania de acelerar tudo. percebam, de uma vez por todas, que nós demoramos mais tempo. em compensação, temos orgasmos múltiplos (tínhamos que ganhar em alguma coisa, não?). voltemos ao semi-nú. ela de cuecas fio dental pretas, ele de boxers cinzentos, justos. um verdadeiro atentado, pensa ela. este homem é um crime. ela mete-lhe a mão por dentro dos boxers, devagarinho. ele arrepia-se. ela arranha-o ao de leve, como que a avisar. ele afaga-lhe as pernas. por dentro. não lhe tira as cuecas. nem vai fazê-lo. são tão pequenas que não precisa de lhas tirar. desvia-lhas ligeiramente. ela não treme, sequer. continua a beijar-lhe o peito, a brincar com os pêlos dele. tira as mãos de dentro dos boxers dele, começa a arranhar-lhe o peito, enquanto o beija. e vai descendo. desce perigosamente. baixa-lhe os boxers com os dentes e acaba de os tirar com as mãos. e volta à barriga dele, num beijo. e desce. desce perigosamente.

[L]


 
apesar de ter mais botões é mais fácil desapertar uma camisa

rewind. desapertar um soutien é fácil, é... mas quando se tem a boca colada num pescoço, as mãos a tentar desencaixar as minúsculas peças, enquanto ao mesmo tempo se tenta absorver aos apalpões toda a pele das costas, a trapalhada é o mais comum. essa demora é também razão para aumentar a ansiedade feminina, o desejo quase a rebentar. finalmente ela só de cuecas pretas e é assim que ele a venera, enquanto lhe saboreia a pele. os arrepios atropelam-se. enquanto se prova o corpo até aos olhos revirados o mundo acaba. fast forward. o cigarro nunca soube tão bem.

Friday, April 23, 2004
 
esperma

entrar em casa. acender a luz do hall, programada para média-luz. sentir as mãos dele puxarem-lhe o cabelo. descalçar um sapato. dar dois passos colados em beijos. descalçar outro sapato. as mãos dela no cinto dele. arrancar aquilo com força. o botão das calças salta. as mãos dele por dentro das alças do vestido preto, justo. uma alça a cair pelo braço. depois a outra. mais uns passos trôpegos. as mãos dela a abrir-lhe a camisa. a puxá-la para trás. a arrancá-la dali. as mãos dela no peito dele. as mãos dele a abrir o fecho do vestido dela, de lado. o vestido a descer-lhe pela anca. as mãos dele no peito dela. as mãos dele a demorarem 2 minutos para abrir o soutien (vocês, homens, são terríveis. aquilo é simples. puxa-se um bocadinho para trás, depois para baixo e aquilo desencaixa. é fácil). entram no quarto. ele de calças, ela de soutien e meias de liga. ela atira-o para a cama. ele reage. tenta levantar-se. as mãos dela a baixarem-lhe o facho das calças. puxa-lhe as calças ao mesmo tempo que lhe vai beijando as pernas. ele agarra-se à cama. ele passa para cima dela. tira-lhe uma meia de cada vez. depois o soutien. depois as cuecas. ela tira-lhe os boxers. bip. tzzz.tzzz.

Wednesday, April 21, 2004
 
eu não sou o gustav klimt

cruzaram-se na rua sem sequer imaginar a desgraça comum que os unia. ele reparou nela. reparou bem nela. era um corpo daqueles que se repara longamente, daqueles que nos obrigam a parar o tempo até algo nos chamar à vida. ela não o viu. reparou na t-shirt engraçada. na cara nem reparou. a mensagem subversiva da t-shirt lesava a monotonia da comunidade: eu não sou pedófilo (à frente) mas bebo coca-cola (atrás). ela reparou na t-shirt mas por baixo estaria alguém chato e demorado, lento e curioso que imaginaria amores felizes onde não havia mais que suor breve. ela nem reparou nele. ela teve um mau dia no trabalho e não queria mais nada. o dia terminava lentamente à força demorada da escuridão. mas ela só queria sentir-se porca e barata. enviou duas sms e arrumou o dia logo ali. as massas no restaurante fashion e os suores seguintes no apartamento almofadado a chill out não seriam mais que rotina.

Tuesday, April 20, 2004
 
eu não sou a juliette binoche

não sou. por mais que me esforce, não sou. porque raio é que me lembro sempre da juliette binoche quando me visto de branco? não sou esta mulher quarto crescente. nem os meus homens acreditam que eu o seja. beep beep. beep beep. tenho que mudar a porra deste toque das mensagens, que coisa irritante, ser uma nokia girl em plena lisboa. bip. tzzz. tzzz. melhor. está melhor. o jantar é em minha casa. traz-te só a ti. não venhas nua, por favor. os vizinhos reparam. bip. tzzz. tzzz. hum hum... mas porque raio não sou a binoche? foda-se.

 
amor teleférico, do outro lado da cidade, no subúrbio há amor

beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. ela dobra-se para apanhar algo que cai, as cuecas de fio dental rosa à vista. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. beep beep. beep beep. 1 mensagem nova. mensagem enviada. relatório: mensagem entregue. desculpa, sou homem.

Monday, April 19, 2004
 
day one

catarina almoça quase sempre sozinha. dispensa companhia numa hora que, para ela, faz parte de um ritual. é quando aproveita para ler mais um pouco, para observar o mundo que a rodeia, para ver se está actualizada. por isso, por querer estar sozinha, nunca almoça perto do escritório. como mora no centro da cidade, aproveita muitas vezes para ir a casa e comer qualquer coisa lá por perto. isto dito assim poderia fazer pensar que catarina é, no fundo, uma mulher caseira. não é. longe disso, aliás. enquanto almoça uma salada de frango e ananás guarnecida com frutos secos, catarina recebe uma mensagem no telemóvel.

"se te disser que quero, que me dizes? e se te disser que não? até que ponto és uma mulher de desafios? às 20h"

catarina esboça um sorriso. olha o relógio. tem seis horas para delinear a próxima estratégia. continua a comer, com dois pares de olhos pousados nela. um homem de trinta e poucos anos, cabelo a ficar grisalho por cima das orelhas, um fatinho armani que assenta na perfeição. olha para ela sem sorrir. sem qualquer expressão. sorri, apenas. ela olha para ele e sabe que tem os olhos a brilhar. lança-lhe um olhar provocador, mas sem mais nenhum movimento facial a acompanhar. o outro, um miúdo de vinte e poucos anos, cabelo levantado em crista (ou será moicano?), moreno, de jeans e t-shirt laranja por cima da sweat-shirt preta. este sim, olha-a de sobrancelha levantada como quem diz "sei exactamente o que queres e tenho isso tudo para te dar". ela olha-o de soslaio. sorri, bebe um gole de água e depois passa a língua no lábio superior para absorver uma gota teimosa. ele não desvia os olhos. ela prossegue.

Monday, April 12, 2004
 
os homens são

um telemóvel na orelha é um artefacto mais chato que um brinco porque nos obriga a ter uma mão ocupada deixando livre só a outra. só sobra uma mão para pegar no bule, levantá-lo, dizer muitas vezes sim ao cliente nervoso que anseia o fim do negócio pelo atraso da entrega do trabalho, levantar cuidadosamente a tampa do bule com os dedos que restam, agitar levemente o cabelo solto para levantar um pouco mais o olhar do solitário da mesa da frente, entornar calmamente o chá, entornar o chá na chávena e entornar o chá na mesa, parar. interromper os sins do telemovel para gastar os guardanapos todos até deixar a mesa minimamente apresentável, o solitário da frente nem notou, empenhado que estava em imaginar a cor da noite nos cabelos negros, a mesa limpa, o chá sem açúcar bebido num instante e o homem ficou só a olhar. às vezes nada acontece.

Thursday, April 08, 2004
 
catarina e os homens - I

catarina é assim: alta, morena, bonita. 33 anos, consultora financeira. é uma manipuladora nata, observadora, não lhe escapa um pormenor. tem todos os gestos estudados, segue os seus próprios planos à risca, porque sabe exactamente o que fazer para alcançar cada objectivo. a vida, para catarina, é uma to do list, onde vai acrescentando "certos" às etapas concretizadas. a vida, para catarina, é apenas um prólogo de morte, uma diversão como outra qualquer, um jogo. a vida, para catarina, não é vida coisa nenhuma.
é uma mulher a quem não falta nada. vive sozinha, não depende de ninguém. veio estudar para lisboa aos 18 anos e por cá ficou. daqui só para nova iorque, costuma dizer. nem se contentaria com menos. não acredita em casamentos, nunca acreditou. quer muito ter um filho, mas isso há-de ser mais tarde, talvez fruto de uma relação fortuita. e isso não é problema para ela.
tem um círculo de amigos restrito, embora se mova numa vasta imensidão de conhecidos. tem amigos jornalistas, apresentadores de televisão, advogados, designers. é o exemplo acabado da social bitch. esta mulher arrasa tudo por pnde passa, conhece o seu poder e não se inibe de o usar. cresceu sozinha e a selva urbana obrigou-a a criar defesas. no fundo, não é mais do que uma mulher como as outras, que precisa de amor.

são seis da tarde. catarina entra na livraria, o telemóvel colado à orelha, conversa de trabalho. percorre as prateleiras, os olhos a varrerem os títulos na diagonal. procura o "ligações perigosas". anda há anos a pensar em ler este livro e, sempre que lhe pega, tem a sensação de que ainda não chegou o momento certo para o ler. hoje pegou nele novamente. e sentiu que chegou a hora. dirige-se ao balcão para pagar, já a ler a primeira página.
à saída da loja, embrenhada no livro, esbarra na pessoa que ia a entrar. um homem. por muito que fosse um facto de interesse para a história, não se passa nada com este homem. sigamos.

Friday, April 02, 2004
 
catarina e os homens - prólogo

foi numa tarde como outra qualquer. catarina saiu de casa armada até aos dentes. artilharia pesada. de guerra, sempre. vestido justo, preto, sem costas. meias de rede larga. sapatos de salto alto, bicudos, com uma fivela à volta do tornozelo, pretos. baton vermelho. cabelo solto, numa revolução. saiu como saía todos os dias, para tomar café depois de almoço. catarina gosta de andar pelas ruas da cidade, sempre por caminhos diferentes, sempre a sentir o calor dos olhares que pousam sobre ela. entra num café novo. chama-se lisbonne caffé e é uma coisa assim muito minimalista, nada romântica. muito terreno de ilusões. muito pouco terreno de caça. senta-se numa mesa estrategicamente colocada a meio da sala. ondula os ombros em gestos que parecem inocentes. chama o empregado, que se perde naqueles olhos avelã ao primeiro embate. pede-lhe um café e um copo de água. enquanto aguarda pelo café, retoca o baton. e observa pelo espelho os dois homens que a olham descaradamente. são novos, giros. são carne, pensa. olha por cima do ombro, no entremeio de um sorriso. um deles, o mais moreno, sorri de volta. ela mete as mãos pelo cabelo farto e afasta-o do pescoço. tem umas costas lindas, bem delineadas. ajusta a cadeira para ficar de lado para eles. disfarça a posição fingindo ler uns papéis que tirou da carteira. são recibos de gasolina. mais nada. e ele continua a olhá-la, já sem escusas. olha-a de frente. o café dela chega, ela mexe-o sedutoramente, sem lhe deitar açúcar dentro. bebe-o em três goles sorvidos. sente os olhos dele sobre os seus ombros, imagina que ele a esteja a ver nua, a ondular numa cama, qual tigresa em luta com a presa da noite. ele não resiste. dirige-se à mesa dela, puxa uma cadeira ligeiramente para trás e pergunta-lhe se se pode sentar. ela olha-o com o rosto descido, os olhos semi-cerrados. não diz nada. ele senta-se. e diz-lhe Não preciso de lhe dizer que é bonita, pois não? Não. Então o que é que preciso de dizer para que você seja minha? Preciso que me diga exactamente isto: Nunca serei teu.

[L]



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